Revolução digital redesenha o setor de seguros


Com novas regras, mais tecnologia e menos burocracia, a indústria de seguros se moderniza para ganhar competitividade

O mercado segurador brasileiro passa por um momento de mudanças profundas, um processo de “redesenho” sustentado em três pilares que se retroalimentam. De um lado, a revisão do marco regulatório, o início do Sandbox e do Open Insurance apontam para a flexibilização de regras para a oferta de produtos, a redução de barreiras de entrada e o fomento à concorrência, a diminuição de burocracias e a criação de um ambiente pró-inovação.

De outro, há a intensificação da jornada de transformação digital, que ganhou tração nos últimos anos e foi acelerada na pandemia. O embarque de tecnologias como inteligência artificial, blockchain, big data e analytics transformam o dia a dia das seguradoras, da subscrição à detecção de fraudes, da precificação à distribuição de produtos. Por último, o mercado convive com a transformação dos modelos de negócios, que envolvem reposicionamentos estratégicos dos grandes grupos, vendas de carteiras e proliferação de parcerias entre seguradoras ou de seguradoras com bancos digitais, insurtechs e varejistas.

A Superintendência de Seguros Privados (Susep) se dedica desde 2020 à construção de um novo marco regulatório, com o intuito de enxugar normas, reduzir a interferência do regulador e permitir que seguradoras tenham menos amarras no desenvolvimento de produtos e serviços. A busca é por um ambiente mais flexível, aberto à inovação e aderente às demandas de um ambiente de negócios que se digitaliza aceleradamente. “A regulação precisa ser mais flexível e o papel do regulador é permitir ao mercado crescer, inovar e melhorar a jornada do cliente. Não temos que interferir na vida das seguradoras e em sua capacidade de inovação” , diz a superintendente da Susep, Solange Vieira.

Em vigor desde janeiro, a Resolução nº 389/2020, do Conselho Nacional de Seguros Privados (CNSP), estabeleceu a segmentação de seguradoras, resseguradoras, sociedades de capitalização e entidades abertas de previdência complementar para fins de aplicação proporcional da regulação prudencial, atendendo a um pleito antigo do mercado. Os participantes do mercado foram classificados pela Susep em quatro níveis (S1, S2, S3 e S4) e flexibilizaram-se as exigências regulatórias e de capital, de acordo com o perfil de risco, abrindo caminho para mais inovação e concorrência.

Em março, foram simplificadas as regras dos contratos de seguros para coberturas de grandes riscos, o que possibilita ao mercado ampla liberdade negocial entre as partes, acabando com a necessidade de registro de informações na autarquia.

No mesmo mês, a Circular Susep nº 621/2021 modernizou e simplificou o regime dos produtos de danos (massificados). Em vigor desde 1º de março e com um regime de transição para adequação de produtos atualmente em comercialização que irá se encerrar no fim de agosto, a norma permitirá a combinação de diferentes coberturas em uma única apólice, permitindo, por exemplo, a venda de um combo de seguro de automóvel com uma cobertura residencial.

As mudanças não param por aí. A autarquia já colocou em audiência pública a minuta com novas regras para seguros de responsabilidade, microsseguros e auto. Entre as propostas para automóveis está a possibilidade de o cliente segurar metade do valor do veículo, barateando o custo da apólice. “Ao longo do ano, colocaremos em consulta pública a revisão das normas do seguro garantia, pessoas (risco), rural, transportes e acumulação (VGBL e PGBL)”, completa Solange Vieira. A expectativa é revisar todo o marco regulatório até meados de 2022.

A agenda de desregulamentação é considerada positiva pelo mercado, um pleito do setor de seguros há muitos anos. “O movimento permite desonerar as seguradoras, aumentar a competição e o desenvolvimento de produtos de forma mais rápida, sem necessidade de carimbo do regulador em todos os tipos de produto”, opina o presidente da Confederação Nacional das Empresas de Seguros Gerais, Previdência Privada e Vida, Saúde Suplementar e Capitalização (CNseg), Marcio Coriolano.

A flexibilização de regras para a oferta e a comercialização de produtos e o fomento à inovação são as consequências mais palpáveis da revisão normativa, que chega em um momento em que o mercado convive com outra transformação: a digital. “As mudanças regulatórias são puxadas por duas tendências bastante claras: a transformação digital e a necessidade de atender a novas demandas dos consumidores. A tecnologia permite que a relação entre segurador e segurado tenha menos fricção e que as seguradoras inovem em produtos, serviços e na capacidade de atendimento ao cliente. Há um espaço gigantesco para evolução na experiência do consumidor”, diz Lucio Anacleto, sócio da área de Financial Risk Management da KPMG.

A transformação digital da indústria de seguros é um fenômeno mundial e mandatório. O estudo “Insurance Revenue Landscape 2025: Innovate for Resilience”, publicado em abril pela Accenture, mostra que as receitas globais do setor crescerão US$ 1,4 trilhão do início de 2020 ao fim de 2025, para US$ 7,5 trilhões. Para capturar uma fatia desse crescimento, as seguradoras terão que inovar, diz o documento, que calcula que cerca de US$ 200 bilhões virão de novos produtos, serviços e riscos. “Com a mudança para canais digitais e marketplaces, as seguradoras que não embarcarem na onda poderão ter quedas de receita da ordem de 5%”, mostra o estudo.

No Brasil, a jornada de transformação ganhou embalo nos últimos cinco anos, com investimentos crescentes em inteligência artificial (IA), internet das coisas (IoT), telemetria, big data, analytics e algoritmos de machine learning (aprendizado das máquinas). As seguradoras confiam cada vez mais no big data para fornecer taxas altamente individualizadas, permitindo uma avaliação muito mais detalhada do risco de subscrição. “Uma vez que os produtos baseados em big data ganhem uma fatia significativa do mercado, a maioria das seguradoras será forçada a oferecer tais produtos. Da mesma forma, a inteligência artificial será aproveitada para aumentar a adaptabilidade das ofertas de produtos e ajudar a evitar sinistros”, diz trecho do relatório “Próxima Fase: Seguradoras da América Latina se Adaptam à Era Digital”, da Fitch Ratings.

A robotização e automação de processos é um dos focos dos investimentos – na pandemia, os avisos de sinistros e pagamentos de indenizações de forma 100% digital, a autovistoria e a autoinspeção veiculares via apps ganharam tração.

Para um setor essencialmente relacional, as novas tecnologias permitem inovar nos canais de distribuição e otimizar a jornada de um consumidor com hábitos cada vez mais digitais e que deseja se relacionar com a seguradora ou o corretor – da cotação de um seguro ao aviso de um sinistro – com a mesma comodidade com que consome Netflix ou Spotify.

“A grande transformação na indústria é o aprimoramento na jornada do consumidor, com a tecnologia como aliada em melhorar a experiência do cliente” , resume Roberto Santos, presidente da Porto Seguro. “Colocamos o cliente no centro das decisões. Ao conhecer melhor o cliente a partir do uso de dados, entendo as demandas e desenvolvo produtos que atendem suas necessidades” , completa.

A transformação começa na jornada de atendimento. Há dois anos, 100% das interações da Porto Seguro com os segurados eram telefônicas. Hoje, 40% são feitas por robôs no WhatsApp. Com o uso de inteligência artificial, o socorro a um carro em pane é notificado ao chatbot e ferramentas de geolocalização permitem encontrar o segurado com precisão milimétrica.

A Porto Seguro, que abriga uma equipe de mais de 30 cientistas de dados, quer deixar de ser conhecida como uma seguradora de automóvel e ganhar a fama de um “ecossistema completo de soluções”. Assim, a inovação inclui o lançamento de produtos e serviços aderentes às demandas dos novos tempos, que incluem de seguros para pets a serviços de assinatura de smartphones e veículos que podem ser contratados com poucos cliques.

Um exemplo é o Carro Fácil, serviço de assinaturas de veículos zero quilômetro, que alcançou 7.400 contratos ativos ao fim do primeiro trimestre de 2021 e conta até com um seguro mensal por assinatura, o Bllu. “Soluções como serviços por assinatura podem ser a porta de entrada para a contratação de um seguro. Esse é o pulo do gato”, diz Santos.

A transformação digital não começou com a pandemia, mas a crise sanitária e as medidas de isolamento social turbinaram a agenda, diz o presidente da Bradesco Seguros, Ivan Gontijo. “O consumidor mudou e os clientes passaram a exigir produtos mais aderentes às suas necessidades”, afirma.

A empresa aperfeiçoou os canais digitais de comercialização, cujas vendas cresceram 52% em 2020, na comparação com o ano anterior, superando a marca de R$ 1 bilhão. Cerca de 11 produtos foram comercializados 100% on-line. “Em previdência, investimos na ampliação dos canais digitais e aplicativo disponíveis aos gerentes para vendas on-line e incluímos uma ferramenta específica para mobile e assinatura eletrônica por biometria. Em Vida, disponibilizamos o aviso de sinistro 100% digital para todas as coberturas e contratos, tornando mais ágil a jornada dos segurados” , diz. A telemedicina decolou e a Bradesco Seguros realizou mais de cem mil atendimentos pela plataforma “Saúde Digital”.

Os exemplos servem para refutar, na opinião dos participantes do setor, uma visão considerada dogmática de que o setor segurador é conservador e tecnologicamente defasado. “A transformação digital no setor está acontecendo há algum tempo, ainda que com níveis de maturidade distintos entre as seguradoras”, diz Anacleto, da KPMG. “É preciso considerar que o setor, assim como o bancário, tem um histórico de sistema legado, de processos e governança, e não se transforma em 100% digital do dia para a noite. Essa evolução é um organismo vivo”, completa.

A oferta de produtos inovadores e de novos modelos de comercialização tende a crescer nos próximos anos com a popularização das insurtechs, startups que trazem inovação ao mercado. A Susep selecionou, em outubro de 2020, 11 projetos para participar do Sandbox regulatório. Termo que em português é traduzido como “caixa de areia” e remete ao espaço no parquinho onde as crianças podem brincar em segurança, vigiadas pelos pais, o Sandbox é um ambiente experimental e supervisionado que permitirá às startups atuar, por até três anos, com menor custo regulatório e maior flexibilidade para inovar. A previsão da Susep é publicar até julho o edital para a segunda chamada do programa.

Os projetos autorizados incluem seguros para smartphones, automóveis, pets e acidentes pessoais e a oferta de produtos intermitentes (permitem a contratação por períodos reduzidos) e sob demanda.

A MAG Seguros foi a única seguradora selecionada para a primeira etapa do Sandbox e a empresa, com 185 anos de mercado, anunciou o lançamento de uma insurtech 100% digital, a Simple2u, que deverá entrar em operação até junho, explica o Chief Marketing Officer (CMO) Nuno David. A insurtech oferecerá seguro de acidentes pessoais e residenciais sob demanda e um dos principais diferenciais é a possibilidade de o cliente ativar e desativar as coberturas sempre que achar necessário. “O modelo on demand é disruptivo e permite que o cliente escolha uma cobertura de acordo com sua necessidade, com autonomia para ativar ou desativar a proteção. Nosso público-alvo são os jovens consumidores”, diz David.

Enquanto se adapta a um mundo cada vez mais tecnológico, as seguradoras se reinventam com movimentos estratégicos (compra e venda de carteiras) e parcerias com players diversos – com outras seguradoras, insurtechs, varejistas ou bancos digitais.

Nos últimos dez anos, foram 195 operações de M&A (fusões e aquisições) no setor no Brasil, conforme levantamento da KPMG. Os números não significam um movimento de consolidação, mas de reposicionamento. Ao vender carteiras não prioritárias, muitas seguradoras apostam suas fichas em estratégias de especialização.

Em julho de 2020, por exemplo, a SulAmérica concluiu a venda da carteira de automóveis e ramos elementares para a Allianz por R$ 3,18 bilhões, e se reposicionou como uma gestora de saúde integral (incluindo a vida financeira dos segurados). Em paralelo, uma série de parcerias se proliferou nos últimos cinco anos em um momento em que uma economia debilitada deixou os anos de crescimento a taxas chinesas para trás e uma taxa de juros de 3,5% ao ano, que reduziu os ganhos financeiros das seguradoras, impôs desafios adicionais às operações.

Em 2020, a arrecadação em prêmios do setor avançou 1,3%, em relação ao ano anterior, excluindo saúde suplementar e DPVAT. Embora indique resiliência em um ano em que o PIB encolheu 4,1%, o setor teve perda real de receita. As parcerias, desta forma, permitem às seguradoras diversificar áreas de atuação, acessar novas fontes de receita e compartilhar riscos.

Em um momento desafiador da economia, as saídas para melhora de performance são ganho de escala e busca por sinergia, opina o presidente da HDI Seguros, Murilo Riedel. “O M&A nunca foi economicamente tão necessário, mas nunca foi tão difícil como agora. Assim, as parcerias estratégicas são uma forma de encurtar tempo de aprendizado, ganhar escala, incorporar tecnologias do parceiro, reduzir custos e aumentar eficiência”, diz.

Nesta linha, a HDI e a Icatu Seguros lançaram um seguro de vida PME, aproveitando a expertise da segunda nesta área e a capilaridade (26 mil corretores e 2,5 milhões de clientes) da primeira para ampliar a distribuição. Em outra frente, o Santander Auto, plataforma controlada por Santander e HDI, faturou R$ 100 milhões em prêmios em 2020, no seu primeiro ano de funcionamento e em um ano em que os prêmios da carteira auto recuaram 2,1%.

Outra novidade que desembarca no Brasil nos próximos meses é o Open Insurance, o ambiente integrado de compartilhamento de dados da indústria de seguros. A estrutura permitirá que os consumidores compartilhem informações pessoais (dados cadastrais, vigência das apólices, prêmios e sinistros pagos, por exemplo) com outras seguradoras na plataforma. A partir do consentimento do cliente, os dados poderão ser acessados e utilizados pelos participantes para a oferta de produtos e serviços customizados e melhores condições comerciais.

“O Open Finance permitirá que a pequena empresa possa ser tão competitiva quanto a grande seguradora com braços de distribuição e democratizará o acesso ao seguro no país”, diz Solange Vieira, da Susep. A autarquia colocou em consulta pública a minuta com as normatizações do sistema, que será integrado ao Open Banking do Banco Central – que prevê o compartilhamento de dados de transações de produtos de seguro, previdência privada e capitalização geridos por instituições bancárias em dezembro de 2021.

O cronograma do Open Insurance, assim, foi ajustado ao calendário do Banco Central, uma vez que nem todas as sociedades reguladas pela Susep estão ligadas a bancos ou fazem uso de canais bancários para distribuir produtos, o que poderia levar a um desequilíbrio concorrencial no mercado. O cronograma prevê o início do funcionamento da primeira fase do Open Insurance em dezembro.

A inclusão de informações pessoais dos consumidores tem previsão de início em 2022 e o prazo final para a implantação do ambiente vai até o início de 2023. O mercado entende que o Open Insurance é um importante mecanismo para a melhora da concorrência e da satisfação do consumidor, mas há pontos de preocupação, conforme Marcio Coriolano, da CNseg.

As principais dúvidas recaem sobre custos de implementação, o papel das Sociedades Iniciadoras de Serviços de Seguros (SSI) e dos corretores nesse ambiente e a segurança dos dados. “Outra preocupação é com o cronograma de implantação, em meio à pandemia e à crise econômica. O cobertor é curto neste momento”, diz Coriolano.

Fonte: Valor Econômico