O crédito às empresas nos tempos de pandemia


Ao contrário das crises passadas, desta vez o acesso a linhas de financiamento conseguiu se manter ativo e foi fundamental para conter um impacto ainda maior na saúde financeira de micro, pequenos e médios empreendedores

Valdemir Bertolo – CEO da Serasa Experian

O ano de 2020 tem sido desafiador em todos os sentidos. A pandemia da Covid-19 alterou profundamente comportamentos e hábitos de consumo. As empresas tiveram que se reinventar e expectativas se inverteram. Se antes projetávamos uma aceleração do crescimento econômico, redução gradual da inadimplência e do desemprego, contas fiscais em recuperação e estabilização da taxa cambial, agora essas tendências são diametralmente opostas. Nesse contexto, o crédito tem exercido papel fundamental.

Diferentemente do que ocorreu em outras crises pelas quais passamos (e não foram poucas), dessa vez as portas do crédito não se fecharam completamente. As empresas puderam contar com apoio para a renegociação de dívidas com credores e fornecedores, para a readaptação dos negócios a uma nova realidade ou até mesmo para ampliação de investimentos, pois para alguns setores a pandemia resultou em oportunidades.

Uma série de medidas ajudaram a manter a oferta de crédito fluindo no mercado. Entre elas podemos destacar as reduções da taxa básica de juros, a criação de linhas de créditos especiais às empresas (foram 188 segundo levantamento realizado pelo Sebrae), redução de alíquotas tributárias, prorrogação de recolhimentos fiscais, além da criação do auxílio-emergencial, que deu fôlego ao consumo. Apesar de menor, o acesso ao crédito foi preservado.

Há números que comprovam isso. O saldo da carteira de crédito bancário às micro, pequenas e médias empresas cresceu 18,5% entre março e agosto deste ano. É percentual maior que os 11,3% de crescimento da carteira de crédito destinada às grandes empresas. Não só o crédito avançou, mas a inadimplência também caiu – um fato inédito em situações de crise. Em março, 5,8 milhões de micro e pequenas empresas estavam inadimplentes. Este número recuou para 5,5 milhões ao final de agosto.

Neste quadro de redução da inadimplência e de ampliação de crédito às micro e pequenas empresas, algumas medidas adicionais foram fundamentais. Entre elas, podemos destacar a realização de cursos gratuitos de educação financeira e webinars de conscientização sobre o uso correto das linhas de financiamento – alguns promovidos pela Serasa Experian. O aumento da digitalização e o fato de as pessoas estarem mais conectadas virtualmente, possibilitou o acesso mais frequente a esse tipo e conteúdo.

Verificou-se também o crescimento no interesse por informações sobre como aumentar a renda e como trabalhar de casa. Um exemplo disso é a quantidade de buscas na internet por “como fazer em casa”, o que pode demonstrar tanto interesse por economizar no orçamento doméstico, quanto por novas formas de obtenção de renda e de empreender.

Não menos importante foi a entrada em vigor, agora de forma plena, do Cadastro Positivo neste ano de 2020. Todos sabemos a capacidade que os novos modelos de score (pontuação), que agora contemplam o comportamento de quem é bom pagador, têm na ampliação do acesso ao crédito. O Cadastro Positivo possibilita maior assertividade na avaliação de risco, aumentando as taxas de aprovação num momento em que as empresas mais precisam. E isto já é uma realidade.

Olhando para a frente, o que projetamos é que, mesmo após o controle da pandemia, a sociedade jamais se comportará da mesma maneira. Do ponto de vista das empresas, esta experiência transformará a forma como se gerenciam riscos e moldará os modelos de negócios – alguns de forma definitiva.

Já os agentes do mercado de crédito – instituições financeiras públicas e privadas, birôs de crédito, o próprio governo com suas medidas monetárias e fiscais – conseguiram sustentar a oferta de crédito, tanto para as empresas quanto para os consumidores.

Ficou comprovado que ele – o crédito – é elemento essencial para que possamos superar a atual crise econômica. É ele que vai nos ajudar a recolocar o país em sua rota de crescimento e a sustentar a geração de emprego e renda. Ou seja, o crédito é fundamental para retomada do crescimento econômico do qual o Brasil tanto precisa.