Fintechs recorrem a dados de celular e redes sociais para dar crédito


Os fornecedores de crédito não se limitam a consultar comprovantes de renda, Serasa e SPC para saber se trata-se de bom pagador

Na China imperial, quando alguém precisava de algo emprestado, inclusive dinheiro, quem podia fazer a oferta buscava informações sobre aquela pessoa com a população. Seus vizinhos e conhecidos eram ouvidos, a fim de checar informações sobre seu estilo de vida e garantir que se tratava de alguém honesto, que devolveria o que tomou ou que pagaria corretamente a quem deu o crédito. Essa situação era comum durante a Dinastia Ming (1368-1644), tempo muito distante da era tecnológica atual. Hoje, quem oferece crédito continua precisando checar se o tomador é confiável. No entanto, os fornecedores de crédito não se limitam a consultar comprovantes de renda, Serasa e SPC para saber se trata-se de bom pagador. A análise de crédito agora passa também por smartphones e redes sociais.

A utilização desses dados como uma forma de conhecer melhor a pessoa antes de dar o crédito tem sido feita principalmente por fintechs. Essas empresas oferecem serviços financeiros de forma mais tecnológica, como contas digitais ou empréstimos feitos por aplicativos. Muitas delas têm como público-alvo jovens ou pessoas que não têm nenhum relacionamento com instituições bancárias – os “desbancarizados”. Por isso, trata-se de um grupo que não tem um histórico financeiro, como contas, cartões ou financiamentos em seu nome.

A saída encontrada pelas fintechs que oferecem crédito (seja por meio de cartões ou até mesmo de linhas de empréstimo) foi checar dados como o estilo de vida daquela pessoa e até mesmo verificar se as informações que ela colocou em seu cadastro são verdadeiras, o que seria mais uma prova de sua confiabilidade. Assim, as companhias conseguem mapear não só se devem ou não oferecer crédito para aquele cliente, como também quais são as condições (como o limite e os juros) ideais para ele.

A fintech de cartões de crédito Trigg é uma que lança mão dessas ferramentas. Wellington Santos, presidente da companhia, conta que a empresa busca “informações em redes sociais, dados do celular e até geolocalização” antes de dar crédito ou aumentar o limite de um cliente.

“Na Trigg, nós usamos os dados do sistema de risco do Banco Central e também os birôs de crédito [empresas como Boa Vista SCPC e Serasa]. Mas uma pessoa que nunca teve cartão ou financiamento não tem nada para checarmos. Então, vou negar o crédito para ela? Não. Eu olho para os dados do celular dela.”

Um dos mecanismos usados, segundo o executivo, é checar se as informações que a pessoa colocou em seu cadastro são verdadeiras. “Eu vejo que ela colocou que mora no Rio de Janeiro, então eu checo em um dos aplicativos instalados que o endereço favorito realmente consta no Rio. Se ela me deu um telefone de referência, eu vejo na sua agenda que aquele telefone está salvo e ela recebeu uma ligação dele ou enviou mensagem. Isso são as ‘informações positivas’”, afirma.

Essas informações positivas, segundo Santos, funcionam como um atestado de que aquela pessoa provavelmente estava falando a verdade no cadastro. Portanto, se ela disser que a renda dela é de R$ 1 mil, a tendência é que isso também seja verdadeiro. A fintech ainda checa em sua base de dados se há muitas pessoas da mesma faixa etária e da mesma região que disseram receber algo em torno de R$ 1 mil para, a partir daí, bater o martelo e conceder o crédito.

As redes sociais são outro instrumento usado pelas fintechs. Nelas, podem checar se informações como o local onde a pessoa vive ou trabalha são os mesmos que informou no cadastro. Em outros casos, algumas companhias verificam o estilo de vida que o cliente aparenta ter nas redes.

O professor e pesquisador Marcelo Coutinho, da Fundação Getulio Vargas, explica que a ideia é “digitalizar o que já era feito na China imperial”, ou seja, tentar analisar o comportamento daquela pessoa. “Muitas dessas informações estão nas redes de relacionamentos e nos dados do celular. Então, é um resgate do que existia na Ásia séculos atrás.”

Muita gente se questiona, no entanto, se toda essa investigação é legal. Fintechs como a Trigg e seu concorrente Nubank (que começou oferecendo cartão de crédito e hoje tem outros produtos, como conta digital e investimentos) garantem que todos os dados de clientes são protegidos e que toda a pesquisa sobre eles é feita com autorização, e de acordo com a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).

O problema, segundo especialistas, é que a própria legislação ainda não é clara a respeito do que é ou não legal. Nicolo Zingales, professor do assunto na FGV, explica que os usuários precisam autorizar de forma mais específica e destacada (ou seja, além do tradicional “concordo com termos de uso”) que empresas vejam seus “dados sensíveis”. O professor explica que o cliente, por exemplo, pode não ter fornecido informações sobre sua religião, mas por meio das informações do GPS aquela companhia que está com os dados dele pode verificar que ele frequenta determinada igreja.

Fonte: Valor Econômico