Bancos privados veem queda no risco de crédito


Inadimplência ainda deve aumentar, mas em ritmo e intensidade aquém do que se esperava

O risco de crédito dos grandes bancos privados brasileiros dá sinais de volta à normalidade em 2021, depois de ter disparado no ano passado com as incertezas trazidas pela pandemia. A melhora se vê não só nas projeções feitas pelas instituições financeiras para as despesas com provisões (PDD), mas também nas indicações dos principais executivos do setor de que a inadimplência subirá menos e mais lentamente do que se imaginava.

Maior banco do país, o Itaú Unibanco espera um custo do crédito entre R$ 21,3 bilhões e R$ 24,3 bilhões neste ano, depois de o indicador ter batido em R$ 30,2 bilhões em 2020. No Bradesco, a estimativa vai de R$ 14 bilhões a R$ 17 bilhões, bem abaixo dos R$ 25,8 bilhões em despesas líquidas com provisões no último ano. O Santander não faz projeções específicas, mas o presidente do banco, Sérgio Rial, disse não ver necessidade de novos provisionamentos relacionados à crise.

A necessidade de reforçar as reservas para proteger os balanços dos atrasos de clientes pesou nos resultados do ano passado. Juntos, Itaú, Bradesco e Santander tiveram lucro líquido recorrente de R$ 51,8 bilhões, uma queda de 24,7% em relação a 2019. Se olhados apenas os números do quarto trimestre, já se vê uma tendência de melhora. O lucro combinado foi de R$ 16,1 bilhões, número 8,9% menor que o dos três últimos meses do ano anterior, mas 21,1% superior ao do terceiro trimestre. A queda nas despesas com PDD é chave para entender a recuperação.

Em 2020 como um todo, os gastos com a constituição de novas provisões aumentaram 53,4%, para R$ 68,52 bilhões. No quarto trimestre, ficaram em R$ 13,48 bilhões, apontando uma redução de 9% em relação aos três meses encerrados em setembro.

A bomba foi aparentemente desarmada com a ajuda dos programas de prorrogação das parcelas de crédito adotados pelos bancos e pela maior poupança dos clientes durante a pandemia. Com isso, a inadimplência caiu, em vez de subir, e está perto das mínimas históricas. Santander, Bradesco e Itaú fecharam 2020 com taxas de operações em atrasos entre 2,1% e 2,3% de suas carteiras de crédito.

Os bancos ainda preveem que o indicador vai piorar nos próximos meses, mas já não esperam que alcance o patamar visto na recessão, quando a inadimplência chegou ao redor de 4%. Ao mesmo tempo, o auge dos calotes, que se esperava para a primeira metade deste ano, também foi empurrado mais para a frente.

“É difícil projetar a inadimplência porque o grau de incerteza ainda é alto. O pico se dará no quarto trimestre deste ano ou no primeiro trimestre de 2002, mas em níveis muito inferiores aos de crises anteriores”, afirmou o presidente do Itaú, Milton Maluhy Filho. O presidente do Bradesco, Octavio de Lazari Jr., disse esperar uma escalada da inadimplência entre o segundo e o terceiro trimestres, “mas não em níveis maiores que antes da pandemia”.

Os bancos também esperam que o crédito continue aquecido neste ano – agora, principalmente entre pessoas físicas e micro, pequenas e médias empresas, depois da forte alta na demanda de grandes companhias vista no começo da crise. Para o Bradesco, a carteira deve crescer entre 9% e 13%, enquanto o Itaú projeta alta de 8,5% a 12,5% em suas operações no mercado brasileiro em 2021.

Essas perspectivas, no entanto, levam em conta que o programa de vacinação da população brasileira evolua e que haja uma sinalização de disciplina fiscal. Embora esse seja um denominador comum, é nas gradações que a visão dos bancos difere um pouco. “Temos convicção de que a economia entrará em terreno positivo, e o ciclo de recuperação poderá surpreender à medida que a vacinação avance com mais ritmo”, disse Lazari, para quem 2021 será um ano de “reconstrução e não mais de desolação”.

O recrudescimento da pandemia pode afetar o cenário traçado pelo Bradesco, mas o executivo disse acreditar que o país está mais preparado agora do que no início da pandemia para enfrentar a crise sanitária. O banco trabalha com crescimento de 3,6% no PIB, “partindo do pressuposto” de que haverá vacinação e reformas.

“É difícil prever a extensão da segunda onda”, disse Rial. “Primeiro semestre deve ser muito parecido com 2020, mesmas variáveis e dificuldades. O segundo talvez já comece a ser diferente.” Segundo o presidente do Santander, pode haver um “boom” de consumo no mundo todo à medida que a pandemia arrefecer, com consequências para a inflação e as taxas de juros.

Mais cauteloso, o Itaú destacou que sua projeção de crescimento do PIB, que está em 4%, pode cair à metade se houver um atraso de seis meses na vacinação no país. “Os últimos meses têm apresentado recuperação da economia, mas infelizmente os aspectos sanitários permanecem”, disse Maluhy. O presidente do Itaú afirmou também ter como premissas o cumprimento do teto de gastos e o avanço da agenda de reformas.

Fonte: Valor Econômico