Bancos centrais se unem para regrar o crédito verde


Nova regulação com métricas sustentáveis vai ajudar nas alocações baseadas em critérios ESG

O sistema bancário está assumindo que será a parte central do processo de transformação das economias mundiais por meio do crédito verde. O auge da crise criada pela covid-19, que evidenciou problemas socioambientais ainda não enfrentados, levou os bancos centrais de diferentes países a estudarem uma nova regulação com métricas sustentáveis que os bancos terão que seguir. A taxonomia é derivada desse processo e ajuda a pensar a alocação de seus recursos considerando as práticas ESG (sigla em inglês para boas práticas ambientais, sociais e de governança corporativa) das empresas tomadoras de crédito.

A ideia é formar um ciclo virtuoso e desmistificar que finanças sustentáveis são inimigas de bons negócios. “A covid-19 gerou oportunidade única para o sistema financeiro no mundo olhar a economia de forma integrada, resiliente e sustentável. Temos a obrigação de fazer isso”, afirma Carlos Leiria Pinto, country manager da International Finance Corporation no Brasil (IFC). Estudo recente do órgão mapeou oportunidades globais de financiamento sustentável de US$ 23 trilhões até 2030. Na América Latina, olhando só para Brasil, México, Argentina e Colômbia, esse montante é de US$ 2,7 trilhões, sendo que o Brasil concentrará quase que a metade disso, com US$ 1,3 trilhão.

“Portanto, não vamos ser tímidos. Isso é oportunidade única também de negócios”, conta Pinto. O IFC esteve ativo no último encontro, no início do ano, do Sustainable Banking Network (SBN), que reuniu reguladores e associações de bancos de 200 países, com objetivo de promover práticas sustentáveis e gerou um conjunto de documentos que devem ser adotados: Diretrizes de Finanças Sustentáveis, Green Social Bonds Best Practices (melhores práticas para emissão de debêntures verdes e sociais) e o Climate Risk Assessment System (sistema de avaliação de risco climático).

No campo internacional essa agenda cresceu bastante. Entrou na pauta do G20 e de vários fóruns internacionais de reguladores financeiros, como o Financial Stability Board, que criou o Task Force on Climate-related Financial Disclosures (TCFD), onde o foco é o clima, e, mais recentemente, o Network for Greening the Financial System (NGFS), rede de 83 bancos centrais que olha para as questões climáticas e seus impactos no sistema financeiro.

O Banco Central (BC) do Brasil tem participado desses encontros e a agenda BC# Sustentabilidade, lançada em setembro de 2020, é resultado disso. “Esse é o reconhecimento final da importância desse assunto no sistema financeiro. Há três frentes nessa agenda. Uma de caráter prudencial. Outra de compliance, e, a terceira é o BC olhando para as suas próprias práticas e adotando políticas sustentáveis”, observa Otávio Damaso, diretor de regulação do BC.

Em relação ao tratamento prudencial dos riscos sociais e climáticos, o objetivo é se precaver de possíveis perdas que podem ocorrer nas transações financeiras. No aspecto climático, o destaque é a tipificação do risco físico e de transição para uma economia verde. “Toda experiência do BC na implementação de política financeira socioambiental estamos trazendo para a nossa regulação. Estamos também incorporando as discussões internacionais em relação ao clima”, afirma Damaso. O BC decidiu tornar mandatórias as decisões no âmbito do TCFD.

A terceira novidade é a criação do bureau verde de crédito rural, integrando as bases de dados governamentais e facilitando o entendimento e cumprimento das exigências legais. “Esse bureau vai facilitar a vida das instituições no cumprimento das regras já existentes, contribuir para a mitigação dos riscos financeiros no mundo agro e agregar informações e características sustentáveis do crédito rural à agenda do open finance”, diz Damaso.

Na questão ambiental, o barateamento de tecnologias como a do satélite e de sensoriamento remoto tem facilitado o monitoramento e a análise de risco de desmatamento e de produção em áreas que não deveriam ser ocupadas. “É uma inovação importante este novo modelo de negócios do sistema bancário, que está avançando para contribuir para que os clientes pensem os seus investimentos em função da mudança do clima”, observa Annelise Vendramini, especialista em finanças sustentáveis e professora de mestrado da Fundação Getulio Vargas, de São Paulo.

A professora alerta, porém, que há muito por fazer e que o aspecto social é o mais sensível e de difícil mensuração. “Os temas sociais têm certa subjetividade e dependendo do banco muda. Não tem padronização. Um trabalho que fizemos em outubro de 2020 sobre quais aspectos saíram fortalecidos com a pandemia? O S saiu fortalecido, mas ainda há muito a ser feito especialmente durante a análise de crédito”, diz Vendramini.

Fonte: Blog Televendas & Cobrança