PagSeguro quer dar crédito a pequeno lojista sem limitação de juro


A compra do Banco Brasileiro de Negócios (BBN) pelo executivo Luiz Frias faz parte da estratégia da PagSeguro de oferecer crédito ao pequeno lojista sem esbarrar na Lei da Usura, do Banco Central, que proíbe que os juros cobrados em um empréstimo vindo de uma instituição não financeira sejam superiores ao dobro da taxa Selic.

Na prática, quando a PagSeguro passa a ter uma instituição financeira debaixo do mesmo grupo econômico, ela tem autoridade para cobrar a taxa de juros que lhe for conveniente.

Mais do que isso, uma instituição financeira pode oferecer produtos de crédito, diferentemente de uma instituição de pagamentos, que só pode fazer antecipação de recebíveis.

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“Com um banco, o cenário muda completamente, porque não há uma limitação de cobrança de juros, e é possível conceder créditos que costumam ter juros mais altos do que duas vezes a taxa Selic”, diz Carlos Daltozo, chefe de renda variável da casa de análises Eleven Financial Research.

De acordo com o analista, a Cielo, líder de mercado, também esbarrou nessa limitação há cerca de dois anos e, por isso, acabou captando um Fundo de Investimento em Direitos Creditórios (FIDC) para antecipar os recebíveis de seus clientes.

Segundo uma fonte ligada ao assunto, a PagSeguro quer ser “um banco para o pequeno lojista”. O objetivo é oferecer, além das maquininhas de cartão, serviços como conta corrente, seguros e empréstimos para um público menos bancarizado.

“A ideia é oferecer conta, pagamento de conta, seguros, crédito. Fazer com que o lojista não precise mais do banco comercial. Ela aí passa a concorrer com os ‘bancões’. E a empresa tem um espaço grande para crescer”, diz a fonte.

A negociação com o BBN estaria acontecendo desde setembro e teria custado entre R$ 10 milhões e R$ 14 milhões. “Desde o começo do ano passado eles até procuraram outras instituições e acabaram fechando o negócio com o BBN”, afirma.

Segundo a fonte, a PagSeguro quer, inicialmente, aumentar sua oferta de crédito. Hoje, a empresa já oferece empréstimos através da fintech Biva, controlada pelo grupo desde o final de 2017. Porém, como essa startup funciona como um correspondente bancário da financeira Socinal, a PagSeguro não consegue cobrar taxas de juro à sua escolha.

O interlocutor ainda afirma que outras credenciadoras têm planos parecidos, como é o caso da Stone. “A Stone também está olhando, tem até uma divisão de funcionários em áreas denominadas de Stone Banking, Stone Payments”, afirma.

Segundo Eduardo Rosman, analista do BTG Pactual que acompanha o setor, empresas como PagSeguro e Stone – apesar de usarem estratégias diferentes, com a primeira mais voltada ao pequeno lojista e a segunda ao modelo tradicional – têm o objetivo de “ser muito mais que uma adquirente” e oferecer outros serviços financeiros para seus clientes.

“Com banco, a PagSeguro pretende ter mais flexibilidade para oferecer mais produtos financeiros para os seus clientes, sem ficar dependendo de parceria com terceiros. O movimento vai nessa direção”, afirma o analista.

Boanerges Ramos Freire, da consultoria especializada em cartões e meios de pagamentos Boanerges & Companhia, afirma que desde o IPO a companhia mostrava interesse em outros segmentos além da adquirência.

“Era esperado essa evolução, oferecer mais serviços financeiros para esses clientes, pequenos varejistas, vendedores, que são pessoas ali na fronteira entre a pessoa física e a jurídica”, afirma. O especialista também aponta a oferta de crédito como o item mais visado pela companhia.

“O crédito é o item mais desejado, é relevante e dá retorno para quem oferece. Eles veem que o crédito que vai além da antecipação de recebíveis performados, é a antecipação de recebíveis não-performados”, afirma. Os recebíveis não-performados são aqueles em que o lojista negocia um crédito com uma instituição financeira e dá como garantia pagamentos futuros.

Por volta das 16h35, as ações da PagSeguro subiam 4,90% na Bolsa de Nova York, a US$ 22,29.

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