“O que são as “lawtechs” e como elas vão revolucionar o mundo jurídico


“Uma das áreas do conhecimento mais tradicionais do mundo, o Direito está iniciando o que parece ser uma revolução digital. As “lawtechs” ou “legaltechs”, empresas dedicadas a soluções tecnológicas para questões do mundo jurídico, vêm se multiplicando e mostrando que há novos jeitos de executar tarefas nessa área.

Segundo levantamento da LawGeex, empresa de inteligência artificial voltada à advocacia, em 2018 esse mercado movimentou mais de US$ 1 bilhão em todo o mundo. Só no Brasil já são mais de 140 startups nesse ramo, de acordo com um relatório da Associação Brasileira de Lawtechs e Legaltechs (AB2L) divulgado em 2019.

“No final de 2017, quando a AB2L foi criada, eram 35 legaltechs associadas”, conta um dos fundadores e membro do conselho da associação, Matheus Bombig, que acredita que esse segmento ainda deve crescer muito. “Hoje, o Brasil tem 1,2 milhão de advogados e 80 milhões de processos ativos. É um mercado extremamente grande.

“Justamente pela dimensão dessa área, as possibilidades de atuação são inúmeras. Usando ferramentas como processamento de dados, estatística, inteligência artificial e programação, empresas conseguem acelerar e melhorar muitos aspectos do Direito.

É possível disponibilizar plataformas de análise e organização de dados que permitem prever decisões judiciais baseadas no histórico de cada corte; automatizar a gestão de documentos jurídicos; desenvolver mecanismos para facilitar o cumprimento e fiscalização de normas; agilizar e centralizar o acesso a dados públicos; otimizar a gestão dos escritórios e manutenção de clientes; auxiliar o cumprimento de regulamentações; fazer resolução de conflitos on-line; e integrar e processar diferentes sistemas de dados.

“As lawtechs e legaltechs podem agilizar principalmente nas partes mais burocráticas do trabalho do advogado, como na análise de um número muito grande de documentos, por exemplo. Um sistema faz em minutos o que uma pessoa faria em semanas”, opina o advogado Tauan Mendonça, sócio da consultoria de recrutamento especializada no mercado jurídico Vittore Partners.

Exemplos de lawtechs

É o caso da Oystr, uma ferramenta que possibilita que escritórios e assessorias jurídicas coletem enormes volumes de dados de diferentes fontes e os organize dentro do seu próprio sistema. “O cliente usa os nossos robôs para pegar informações na internet, de sites de tribunais e outros sistemas, e consegue colocar no sistema dele de maneira prática”, conta o diretor-chefe de tecnologia da empresa, Jonas Pinheiro Pacheco.

As informações contidas nos sistemas são de todas as movimentações processuais – como intimações, andamento de protocolos e outras atualizações. Especialmente pensando em empresas com clientes grandes, que envolvem milhares de processos cada um, a ferramenta economiza o tempo que seria gasto por várias pessoas em uma tarefa totalmente mecânica.

“Por exemplo, um cliente que precisa consultar a situação de 10 mil processos: em vez de montar uma equipe de dez pessoas para copiar e colar dados por duas semanas, ele consegue usar o robô para fazer isso em minutos”, explica Pacheco, que acredita que o universo jurídico passará pelas mesmas mudanças que o financeiro passou com a entrada das fintechs. “A gente quer que o advogado se preocupe com advogar e deixe que a ferramenta realize as tarefas que ele precisa.

“Outra legaltech brasileira é a Invenis, que automatizou a terefa de identificar novos processos direcionados aos clientes de equipes jurídicas. “Quando alguém move um processo contra outra pessoa, o primeiro lugar onde esse processo aparece é no site dos tribunais. E, hoje, o Brasil tem mais de 100 sites de tribunais”, conta Bombig, co-fundador da Invenis. “A nossa ferramenta automatiza esse processo de pesquisar diariamente em todos esses sites se tem um processo contra uma parte.

“Ainda que o réu vá ser eventualmente notificado sobre a ação, isso pode demorar e custar um tempo precioso de preparação dos advogados. “É um caminho longo até uma parte ficar sabendo que ela foi processada”, diz. Além de ganhar prazo, ele afirma que essa informação também pode ajudar a diminuir a judicialização de processos, abrindo a possibilidade de um acordo logo no início.

“O grande poder da tecnologia é fazer tarefas repetitivas de forma mais eficiente e barata. O que o advogado precisa fazer mesmo é advogar. Qualquer tarefa repetitiva uma máquina faz muito melhor do que o ser humano”, opina o conselheiro da AB2L.

O que muda para os profissionais do Direito

Os especialistas que defendem as lawtechs acreditam que retirando do caminho dos juristas as tarefas passíveis de automatização, sobra espaço para que estes profissionais se dediquem às atividades que realmente requerem qualificação. “A exigência do profissional do futuro vai aumentar em termos de conhecimento jurídico”, aposta Mendonça, da Vittore Partners.

Como já aconteceu em outros setores, esse novo degrau tecnológico deve criar espaço para profissionais preparados para lidar com mudanças e propor novas ideias. “Escritórios de advocacia ainda são muito tradicionais, mas dentro das empresas a área jurídica deixou de ser de suporte e se tornou fundamental para o negócio”, afirma o headhunter. “O jurídico tem que ser um facilitador de novos negócios, com um ‘mindset’ voltado para liderança e inovação.

“Ele ressalta que outras “soft skills” (características ligadas a comportamento e personalidade), como uma boa habilidade de comunicação, são muito requisitadas dentro dos departamentos jurídicos das empresas e aparecem lado a lado das novidades tecnológicas. “O jurídico deve também falar de negócios, ter uma visão transacional do negócio, ser um suporte para alta liderança e propor inovação efetiva. O novo advogado deve estar ligado em novos sistemas e se esses sistemas fazem sentido para o negócio da companhia. O perfil deixou de ser só um advogado.

“Para Bombig, os dados e a tecnologia empoderam os departamentos jurídicos para tomar decisões melhores e que os profissionais que conseguirem se adaptar a essa lógica terão um vasto campo de atuação. “Não existem carreiras que estão em risco, mas sim tarefas que são muito manuais e repetitivas. A profissão do advogado vai continuar existindo”, acredita. “A sociedade está mudando e todo mundo tem que mudar. Ninguém pode achar que a atividade que faz hoje é que vai continuar fazendo ao longo da vida inteira”.

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