Nossa obsessão com a regulação irá acabar com a internet?


Em busca de mais privacidade, acabamos encontrando mais regulamentação. O desafio que fica para as empresas é evoluir em direção a próxima geração web

Qualquer pessoa que preste atenção consegue notar o quanto a internet mudou nos últimos 10 anos. Das pesquisas no Google até as primeiras ferramentas de mensagens, navegar na web parecia secundário, uma distração utilizada de vez em quando. As pessoas ainda telefonavam umas para as outras, viam fotografias impressas e usavam seus computadores ocasionalmente para enviar e-mails.

Os anos seguintes foram marcados pela chegada de redes sociais, como o MySpace, Friendster e Orkut, que apesar de populares, não tinham o poder de transformar a sociedade como nos dias de hoje. Atualmente, a internet é uma necessidade, seja para procurar emprego, falar com familiares e amigos, consumir notícias e entretenimento. Para alguns analistas, durante a última década as pessoas esqueceram o que é a internet, como ela deve ser usada e o que esperar dela.

Privacidade

Considerando que a internet foi criada para ser um ambiente livre e aberto para o compartilhamento de informações, seus desenvolvedores não pensaram em “privacidade” quando organizaram seus fundamentos tecnológicos. Agora, no entanto, nos vemos incomodados quando outras pessoas acabam bisbilhotando suas vidas.

Um dos principais conceitos que define a internet é que qualquer coisa publicada na web é, por padrão, pública, acessível ao mundo. Para muitas pessoas, no entanto, essa ideia não é recebida de forma agradável.

Hoje em dia, é bastante fácil encontrar informações sobre a vida pessoal de alguém usando apenas seu primeiro nome e local de trabalho. Dessa forma, para os profissionais de segurança, se um usuário abre uma conta em redes sociais ou cria um site voltado para o público, essa pessoa terá disponibilizando informações sobre si mesma para o mundo consensualmente.

Akshay Sharma, especialista em segurança, afirma que é importante respeitar as escolhas sobre quem pode acessar informações pessoais, mas afirma que, em vez de ensinar às pessoas sobre a natureza fundamental da internet, o foco como sociedade acaba sendo culpar a web e criar regulamentações que vão contra os princípios do compartilhamento aberto de informações.

Mais privacidade, mais regulamentação

Como se os avisos e alertas de cookies e notificações não fossem suficientes, várias iniciativas na Europa visam obrigar sites de conteúdo a realizar verificações de identidade dos usuários para checagem da idade. Mesmo que o total sigilo para o usuário final pudesse ser garantido – o que é duvidoso em tempos de violações diárias – a abordagem é considerada, muitas vezes, intrusiva para a privacidade e experiência do internauta.

De acordo com Akshay Sharma, a implementação desse tipo de legislação é apenas uma forma para os serviços de verificação de identidade gerarem mais receita. Afinal, existem métodos triviais para driblar esses controles com bastante facilidade, como, por exemplo, as VPNs.

Outra crítica do especialista é em relação à Lei de Cookies da União Europeia, que na prática não tem contribuído muito na proteção dos usuários. Ao ter banners bloqueando a visão, a maioria das pessoas acaba clicando em “aceitar todos os cookies” para tirar a notificação da tela. Mas ter que repetir essa ação em cada site é um exemplo importante sobre como a lei pode atrapalhar a experiência da web.

“Enquanto pressionamos os órgãos por mais regulamentação sem levar em conta suas sérias consequências a longo prazo, depositamos nossa confiança em políticos que nunca realmente desenvolveram um site e podem não entender completamente como funciona a arquitetura cliente-servidor e os cookies”, explica Akshay.

Centralização

A centralização pode ser bastante útil, mas os analistas acreditam que a tendência de fusão das gigantes da tecnologia pode ser problemática. Pensando no Google, o que começou como um mero mecanismo de busca agora é usado para e-mail, fotos, notícias, mapas e até como sistema operacional de smartphones (Android). Da mesma forma, aplicativos independentes de troca de mensagens e compartilhamento de conteúdos, como WhatsApp e Instagram, foram adquiridos pelo Facebook, companhia agora está entrando, também, no mercado de criptomoedas. O Medium.com tem suas raízes na organização por trás do Blogger e do Twitter. O GitHub, plataforma de hospedagem de código-fonte, agora faz parte da Microsoft.

Nesse cenário, Akshay Sharma afirma que não é de se surpreender que as pessoas tenham aceitado a possibilidade de que as empresas de tecnologia tenham poder sobre os processos democráticos e, portanto, devem ser controladas.

Censura

Com as escolhas de uso da internet cada vez mais limitadas, quais informações e opiniões serão priorizadas? Quem são as pessoas que decidem o que é apropriado? Em quais situações deve haver censura?

Essas são algumas questões bastante subjetivas, afinal, há sempre uma linha tênue entre o que é moralmente repreensível e merece censura e o que pode precisar ser censurado porque as pessoas que estão no poder assim querem. “Tenha em mente que a ética e a moral podem ser subjetivas. E a cada poucos anos, conforme as normas sociais evoluem, os critérios de censura também evoluem”, diz Akshay Sharma.

Hoje, qualquer um pode criar suas próprias mídias, mas, a menos que tenha potencial suficiente para agradar às políticas de SEO do Google, provavelmente esses conteúdos nunca serão encontrados

A web da próxima geração

A questão, agora, não está mais relacionada ao que pode ser feito para impedir o controle autoritário dos poderosos, mas sim em pensar como será a internet da próxima geração.

Sempre que as leis tentarem impedir as liberdades – especialmente as tecnológicas – as pessoas mais inteligentes e influentes sempre encontrarão uma maneira de contornar a solução. Dessa forma, talvez a próxima geração da web consiga evitar completamente as regulamentações.

Já existem tecnologias para trazer essa possibilidade para a realidade: criptomoedas, blockchain, redes P2P, Tor, entre outras, devem ser uma base suficiente para manter a segurança dos usuários. E mesmo que hoje os grandes beneficiários dessas tecnologias sejam fanáticos por segurança ou criminosos que vendem identidades falsas, talvez essa seja a única esperança que resta para trazer a web à sua natureza original.

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