Gigantes financeiros atrás da inovação: Entrevista com Rafael Igual


Muito se fala em inovações disruptivas e seu impacto nos modelos de negócios tradicionais. O Waze aposentou os guias de ruas, o Netflix está transformando a forma de consumir televisão, o Airbnb incomodou a indústria hoteleira. Agora, chegou a vez do mercado financeiro sair da zona de  conforto e se deparar com o desafio de reinventar e repensar seu modelo de atuação.
O tema foi destaque na palestra “Novos modelos de negócio marcam o futuro do sistema financeiro”, apresentada no 11º Congresso Nacional de Crédito e Cobrança, em São Paulo. O espanhol Rafael Igual, fundador e CEO da Social Biz Factory, fará uma abordagem sobre o assunto que envolve o conceito de “Inovação Disruptiva”, inserido pela primeira vez no livro “The Innovators Dilema”, publicado em 1997.
“Nos últimos tempos, esse é um conceito que aparece de forma recorrente em diversos fóruns, congressos e artigos. No meu ponto de vista, porém, a união da inovação como ‘criação de algo
novo’ e da disrupção como ‘ruptura ou desconstrução feita internamente e de forma brusca’ parece ser contraditória”, comenta o empresário durante uma entrevista exclusiva para a Revista Credit
Peformance

CP – Depois das inovações disruptivas impactarem diversos setores, parece ter chegado o momento da indústria financeira se reinventar – e urgentemente. O que já está acontecendo nesse setor mundo afora?
RI – É curioso que o setor financeiro tenha despertado da letargia nos últimos 10 anos pela irrupção das redes sociais, a mobilidade e, sobretudo, pelo Big Data. A transformação digital das
organizações de seguros e serviços financeiros é um exemplo claro de “reinvenção
profunda”. As entidades estão apostando na digitalização de toda a cadeia de valor baseada no “dado”, que, transformado em inteligência, permite determinar desde o risco de conceder um empréstimo a uma pessoa que vive em uma determinada localização geográfica até a criação de perfis de bons pagadores, com base em seu histórico e pontos acumulados.

CP – Startups têm aproveitado o gap existente na relação entre as instituições financeiras e seus clientes para desenvolver serviços e produtos com DNA financeiro, porém mais intuitivos, econômicos e, muitas vezes, desburocratizados. De que forma as empresas financeiras e de crédito e cobrança podem interagir e aprender com esses novos modelos de negócios?
RI – Uma estratégia utilizada pela indústria financeira é abrir seu conhecimento, infraestrutura, plataformas e recursos internos para que as startups aproveitem esses arquivos e os transformem
em soluções de negócio a um custo muito menor e com a agilidade necessária para a demanda do mercado. Se combinamos programas de “Open Innovation / Open Data” aos programas de “Intraempreendimento” para fomentar habilidades empreendedoras dentro da organização, alinhamos o negócio com possíveis soluções a partir de fontes internas e externas.

CP – Um estudo do recém-inaugurado Global Center for Digital Transformation (DTB-Center) mostrou que um terço dos executivos entrevistados teme que seus setores passem por uma completa transformação nos próximos cinco anos. Em alguns casos, as mudanças podem levar
ao desaparecimento da empresa. É possível evitar esse cenário? Como?
RI – Se lembrarmos da transformação Online Banking e Mobile Banking, poderíamos fazer a mesma pergunta. Claro que o banco online e móvel provocou um ajuste do organograma, da rede de distribuição e atenção ao cliente, mas não implicou no fechamento da entidade. Quando nos referimos à transformação digital de qualquer setor devemos entender que é sinônimo de inovação em produtos e serviços, processos internos, pontos de contato e cultura organizacional para satisfazer as necessidades mutáveis de seus clientes atuais e futuros. Não se trata de evitar o cenário, mas de enfrentar as novas regras do jogo para antecipar e integrar o comportamento do usuário. Em um recente estudo, McKinsey estima que a transformação digital elevará em 30% a renda dos bancos tradicionais. Além disso, segundo a mesma fonte, os bancos poderiam eliminar até 25% dos seus custos se aproveitarem a transformação digital. Creio que não há espaço para o
medo, é uma questão de se adaptar e assumir o desafio.

CP – Na sua opinião, quais são os principais cases de negócios disruptivos que reinventaram o sistema financeiro e as empresas de crédito e cobrança?
RI – É necessário entender a diferença entre um negócio convencional e um novo negócio baseado em uma plataforma digital, conteúdos e experiência do usuário. Os grandes players tecnológicos,
Google, Aplle, Facebook, Amazon, Microsoft, eBay, Alibaba, estão lançando plataformas de pagamentoPayPal, Google Wallet, Apple Pay com o protagonismo do smartphone, tecnologia NFC e integração com cartões de crédito (Visa, Mastercard e AMEX). Essas plataformas se caracterizam pela simplicidade, facilidade e eficácia do serviço que presta ao usuário e entidades colaboradoras. A verdadeira disrupção vem sido produzida pelo pequeno empresário e setores da população com escassez de recursos, plataformas e aplicativos, como Square, iZettle, LoopPay, Yaap Money, Moven, Simple, Tink, Pocketbook, Mint, Stripe. Financiamento coletivo e colaborativo, como Kickstarter, Indiegogo, Lending Club, que oferecem formas de financiamento radicalmente inovadoras à disposição de qualquer pessoa ou projeto. Muitos opinam que esses novos players não possuem a solvência e a solidez das entidades tradicionais. Mas é preciso levar em conta que essas startups são financiadas pelos fundos de capital de risco, com participação inclusive dos bancos tradicionais.

CP – As gerações Y e Z nasceram em um mundo conectado. O que isso representa para o sistema financeiro? Quais são os possíveis próximos paradigmas a serem quebrados? Por quê?
RI – O sistema financeiro acaba de começar a se acostumar à Geração Y. Eles foram criados em tempos de bonança econômica e, ao chegar na vida adulta, se encontraram com a maior crise econômica de que se recordam. Posteriormente, as marcas financeiras se depararam com a Geração Z, formada pelos nascidos após os anos 1995. Para qualquer entidade financeira, os Millennials são um mundo novo com desafios totalmente diferentes. Eles buscam marcas para amar e adicionam à decisão de compra elementos como origem do produto, fabricação e respeito socioambiental.

CP – Os modelos tradicionais e disruptivos podem coexistir?
RI – Na minha opinião, os modelos tradicionais devem se reinventar para serem considerados transformadores disruptivos. Aquele produto ou serviço que não adaptar seu processo de relação com o cliente muito provavelmente irá desaparecer. Por esse motivo, não imagino que seja possível a coexistência do modelo tradicional e o disruptivo. Creio que a solução está na convergência e transformação do modelo para acelerar a colocação no mercado e se consolidar o quanto antes.

CP – Negócios de ruptura transformam os hábitos dos consumidores ou novos perfis de consumidores transformam os modelos de negócios?
RI – Como consumidor e como assessor na geração e validação de modelos de negócio, poderia questionar: “Quem veio primeiro: o ovo ou a galinha?”. Analisando os casos do Uber, Airbnb, BlaBlacar, Lyft, entre muitos outros, posso concluir que a demanda e o padrão de comprometimento do consumidor é o fator que impulsiona os novos modelos de negócio, plataformas e ecossistemas. A simples observação e o uso eficiente das tecnologias de Big Data, Analytics, Marketing & Customer Intelligence combinadas com modelos preditivos e etnográficos poderiam alcançar o que todo empreendedor, inovador ou criativo deseja: (re)inventar o futuro do consumidor presente.

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