Coronavírus: Governos forçados a subir apoios para salvar a economia


Economias paradas, mercados assustados e bancos centrais com pouco poder de fogo levam a anúncios mais ambiciosos de medidas por parte dos governos em todo o mundo.

Os sinais cada vez mais evidentes de que a uma crise de saúde se deverá seguir uma crise econômica grave, combinada com a incapacidade dos bancos centrais para só por si influenciar o sentimento nos mercados, estão finalmente a forçar os governos a subir a parada nos planos de estímulo que irão lançar às suas economias. EUA, Espanha e Reino Unido estão entre os países com novos planos anunciados essa semana. Em Portugal, o reforço do pacote de medidas anti-crise econômica deverá ser revelado nos próximos dias.

O número mais impressionante veio, como seria de esperar, da maior economia mundial. São 850 mil milhões de dólares (cerca de 775 mil milhões de euros, quase quatro vezes o PIB anual português), as verbas previstas no conjunto de medidas de combate ao impacto económico negativo do novo coronavírus anunciadas esta terça-feira por Donald Trump na Casa Branca.

O pacote de medidas tem uma dimensão semelhante à do plano lançado em 2009 por Barack Obama no auge da crise financeira internacional e terá como peça fundamental a entrega direta a cada cidadão norte-americano de um cheque com um valor ainda por definir.

A ideia inicial era realizar um corte dos impostos sobre o rendimento, algo que Donald Trump tem vindo a defender publicamente, mas esta solução tem a desvantagem de os seus efeitos serem sentidos de forma mais lenta.

Para além disso, inclui um diferimento no pagamento de impostos pelas empresas e algumas das indústrias mais afetadas poderão receber ajudas diretas. Um apoio de 50 mil milhões de dólares (uma parte através de alívios fiscais) às companhias aéreas é uma das possibilidades em cima da mesa.

O presidente norte-americano afirmou, na conferência de imprensa de apresentação do plano que “em vez de várias pequenas reuniões de dois em dois dias”, decidiram agir “em grande”, mostrando confiança de que “assim que o vírus desaparecer, a economia vai disparar outra vez”. O plano da Casa Branca terá agora de ser aprovado pelas duas câmaras do Congresso.

Na Europa, depois de o presidente do Eurogrupo, Mário Centeno, ter dito na segunda-feira que os governos iriam injetar na economia um montante equivalente a 1% do PIB e garantir liquidez às empresas no valor de 10% do PIB, vários governos anunciaram reforços nos seus planos de apoio à atividade económica.

Em Espanha, Pedro Sánchez anunciou aquilo que descreveu como “a maior mobilização de recursos na história da democracia”. De acordo com as contas do presidente do governo espanhol, o plano atinge os 200 mil milhões de euros, qualquer coisa como 20% do PIB espanhol.

No entanto, deste valor, metade corresponde à linha de garantias de crédito oferecidas pelo Estado para assegurar que os empréstimos chegam às empresas em dificuldades de tesouraria e que não existe um problema de liquidez na economia. São 100 mil milhões de euros, 10% do PIB.

Depois, o plano lançado pelo executivo espanhol inclui mais 17 mil milhões de euros de injeção direta de fundos públicos na economia, através de medidas de apoio aos trabalhadores que vejam o seu trabalho suspenso, reforço dos serviços sociais e isenção temporária do pagamento de contribuições sociais. Os restantes 83 mil milhões de euros do plano têm de vir do sector privado.

No Reino Unido, também esta terça-feira, o governo decidiu avançar com medidas de apoio à economia que, disse o ministro das Finanças Rishi Sunak, irão dar aos britânicos “todos os meios para poderem enfrentar esta crise”.

A principal aposta é a criação de uma linha de crédito com garantias do Estado no valor de 330 mil milhões de libras (cerca de 360 mil milhões de euros), um valor que corresponde a 15% do PIB do Reino Unido. E, depois, mais 20 mil milhões de libras (cerca de 22 mil milhões de euros) em apoios directos aos trabalhadores e às empresas.

Outras potências europeias, como a Alemanha, França e Itália, têm apresentado, desde o final da semana passada os seus planos de apoio à economia, não se excluindo contudo a hipótese de um reforço das medidas nos próximos dias.

Em Portugal, o Governo lançou o seu plano de apoio à economia, com um valor global estimado pelo Executivo em 2300 milhões de euros. Também aqui há uma distinção entre as medidas que representam apoios à liquidez através da criação de linhas de crédito apoiadas pelo Estado e medidas que implicam no imediato um aumento da despesa pública ou uma redução da receita, como por exemplo o pagamento de compensações aos trabalhadores que deixam de poder trabalhar.

Mário Centeno revelou, em declarações à Lusa, que o impacto orçamental das medidas era para já de 300 milhões de euros. Para chegar ao valor de 1% do PIB referido por Mário Centeno como presidente do Eurogrupo para a média da zona euro no que diz respeito a aumentos de despesa efetiva ou reduções de receita, seria preciso reforçar as medidas até a um montante próximo de 2000 milhões de euros. E, no que diz respeito ao apoio à liquidez, para chegar aos 10% do PIB, teria de se chegar perto dos 20 mil milhões de euros.

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