Celeiro dos smartphones, Vale do Silício chinês desafia o berço da tecnologia nos EUA


Antiga ilha de pescadores, Shenzen abriga empresas como Huawei e Tencent e já tem PIB maior que o da Baía de São Francisco.

SHENZHEN, China – Enquanto a indústria de computadores florescia no Vale do Silício, nos EUA, Shenzhen, então uma pequena vila de pescadores no sul da China, abria as portas do país comunista ao capitalismo. Primeira Zona Econômica Especial (ZEE) criada pela China, em 1980, na fronteira com a ex-colônia britânica Hong Kong, a cidade, hoje com 13 milhões de habitantes, virou o núcleo de uma gigantesca região metropolitana que abriga empresas de ponta, como Huawei e Tencent.

A chamada Greater Bay Area (Área da Grande Baía, GBA na sigla em inglês) já concentra mais riqueza que a californiana Baía de São Francisco e se impõe como um dos principais centros de inovação do mundo.

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A região é o cartão-postal da estratégia agressiva de avanço tecnológico da China que incomoda os EUA e, para analistas, motiva a guerra comercial desencadeada pelo presidente americano, Donald Trump.

O Produto Interno Bruto (PIB) da GBA — projeto de integração entre Hong Kong, Macau e nove cidades da província de Guangdong — já soma US$ 1,64 trilhão, quase o dobro dos US$ 837 bilhões do Vale do Silício, casa de gigantes americanas da tecnologia, como Apple e Facebook. O centro tecnológico dos EUA ainda vence em PIB per capita, mas a China aperta o passo.

— Do ponto de vista tecnológico, poucos negam que Shenzhen é um dos centros mais avançados não só na China, mas em todo o mundo — diz Louis Chan, da consultoria HKTDC Research, baseada em Hong Kong, para quem a renda na região cresce rapidamente com a atração de novos negócios. — A considerável população e a possível radiação para o resto da China e da Ásia fazem da GBA uma queridinha para empresas de tecnologia, de start-ups a gigantes.

Em 1979, antes da abertura comercial, Shenzhen não contava com mais de 50 mil habitantes. Com a criação da ZEE, no ano seguinte, a cidade começou a atrair fábricas rapidamente. Mesmo com turnos de trabalho extenuantes, os salários pagos eram infinitamente superiores ao padrão da época na China, uma nação empobrecida e essencialmente agrária. Para investidores estrangeiros, a mão de obra barata era uma forma de reduzir os custos de produção num mundo que iniciava a integração econômica da globalização.

‘Fábrica do mundo’

Logo o volume de produção tornou Shenzhen conhecida como a “fábrica do mundo”, escolhida por marcas globais para instalar indústrias. Hoje, o passado de produtos de baixa qualidade ficou para trás. Grande parte dos tablets, smartphones, computadores, drones, videogames e outros aparelhos vendidos no Ocidente vem da GBA. Em 2018, o porto de Shenzhen foi o terceiro mais movimentado do mundo, atrás apenas de Xangai e Cingapura.

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A força econômica da GBA se completa com o cinturão de fornecedores instalado em torno das gigantes chinesas de tecnologia. São milhares de empresas que compõem um ambiente único para a inovação. Por isso a região foi apelidada de Vale do Silício chinês.

Qualquer pessoa, literalmente, pode comprar peças e ferramentas e desenvolver gadgets . O youtuber americano Scotty Allen, por exemplo, ganhou fama mundial ao montar seu próprio iPhone com peças garimpadas no mercado local Huaqiangbei, o maior de eletrônicos do mundo.

— Todas as peças estão lá. A maior dificuldade foi me comunicar em chinês — diverte-se Allen.

Andar pelas ruas dessa metrópole chinesa é olhar por uma janela para o futuro da China. Enquanto a Apple lança seu cartão de crédito, por lá muitos estabelecimentos não aceitam mais o plástico. Os pagamentos são todos por celular. Praticamente toda a frota de ônibus e táxis é de veículos elétricos. Motonetas ligeiras de entregadores, também elétricas, cruzam as calçadas.

— No Vale do Silício tem Google, Facebook, empresas do ramo de internet, mas em Shenzhen o destaque é o hardware — compara Eduardo Glitz, sócio da firma de educação executiva StartSe, que promove missões de executivos brasileiros à China. — Aqui no Brasil, os espaços de coworking para start-ups têm mesas e computadores, lá são laboratórios de tecnologia, para a construção de hardware . É tudo voltado para os makers .

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O rápido avanço tecnológico não passou despercebido. Para Simão Davi Silber, professor do Departamento de Economia da USP, não é coincidência que duas empresas baseadas em Shenzhen, Huawei e ZTE, tenham se tornado alvos preferenciais da guerra comercial de Washington.

— A China partiu muito atrás e foi direto para a ponta. Investiu em educação, foi copiando tecnologias do Ocidente, e todo o mundo foi benevolente, aceitou esse modelo. Mas ela se tornou importante demais, hoje é um concorrente de primeira linha que deixa a Europa e o Japão para trás e começa a disputar com os EUA a liderança do mundo no século XXI — analisa Silber.

Ao longo da História, quem dominou a tecnologia exerceu hegemonia no mundo. Aconteceu com Portugal, com as navegações, e com a Inglaterra, da Revolução Industrial. No pós-guerra, os EUA assumiram a ponta e se tornaram hegemônicos com o fim da Guerra Fria. A vez da China pode estar chegando.

— Todos os países foram líderes por causa da tecnologia. Os EUA querem atrapalhar a ascensão da China — afirmou o professor da USP. — A tecnologia da vez é o 5G e a China está muito à frente. A próxima guerra não vai ter um foguete disparado, vai vencer quem conseguir paralisar as comunicações do inimigo.

Educação e protecionismo

O desenvolvimento tecnológico da China não se restringe a Shenzhen, é um projeto de país. A nação asiática investiu pesado em educação, principalmente na área de exatas. E como o Estado tem controle sobre a economia, o governo optou pelo protecionismo em setores como o de tecnologia. Google, Facebook, Twitter, entre outras companhias ocidentais, não podem operar no país.

Sem concorrência, as inovações chinesas avançam no imenso mercado doméstico de 800 milhões de internautas. O paradoxo é que a interferência do Estado não inibe empreendedorismo e inovação.

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— Existe um discurso de que a democracia é o melhor ambiente para inovação tecnológica. Será? — questiona Oliver Stuenkel, coordenador do programa de pós-graduação da Escola de Relações Internacionais da FGV-SP. — Na China não existem restrições, por exemplo, à privacidade, como acontece no mundo ocidental. O espaço para inovação sem restrições é maior. Mas a inspiração da China está nos EUA, no seu papel de liderança na globalização. A China quer fazer igual.

*O repórter viajou a convite da Huawei

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